segunda-feira, 25 de junho de 2012

Os desafios do Brasil para sediar a Copa de 2014

Desafio do Brasil: formar profissionais em idiomas

24/06/2012 14:56

Formar profissionais em idiomas estrangeiros para atender grandes eventos é desafio do país


Formar profissionais que dominem idiomas estrangeiros – especialmente o inglês – para atender a turistas, empresários, jornalistas, esportistas e representantes de delegações internacionais durante a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 é um desafio. Não há dados oficiais disponíveis que confirmem o déficit de pessoas que falem inglês no Brasil, mas os próprios estrangeiros no país confirmam que têm certa dificuldade para se comunicar.

De acordo com a pesquisadora em aprendizado e bilinguismo Nara Vidal, a inexistência de levantamentos ou bibliografia sobre o tema indica o atraso em debater a questão de forma ampla. “É extremamente difícil encontrar dados. Fontes informais indicam que apenas 10% da população brasileira falam inglês. E essa informação é bastante problemática e difícil de analisar, porque falar inglês é um conceito complexo. Há aqueles que sabem um pouco, sabem muito, são fluentes. Enfim, 5%, 10% ou 30%, seja o que for, não temos nem metade da população brasileira falando inglês”, informou Nara.


A Agência Brasil falou com a enfermeira canadense Celine Purcell, 28 anos, em visita ao Brasil pela segunda vez, sobre a sua percepção da qualidade do inglês quando um estrangeiro é recebido no país. Para ela, é possível entender os brasileiros e se comunicar de forma simples. Celine explicou, no entanto, que não sente segurança para resolver problemas mais complexos, que poderiam envolver a necessidade de vocabulário mais avançado e fluência.
“Pedir uma refeição ou pegar um táxi não é problema. Ainda não passei por grandes dificuldades aqui, mas acredito que se precisasse comprar um remédio, explicar um sintoma no hospital ou me envolvesse em algum problema com a polícia, não conseguiria ser compreendida ou compreender de forma satisfatória”, disse.

Ao perceber a necessidade de os funcionários se comunicarem melhor para incrementar os negócios, Malu Farkuh, dona de uma lanchonete no Mercado Municipal de São Paulo, permitiu que três atendentes cursassem aulas de inglês pelo Programa É a Língua Que Nos Une, da prefeitura da cidade, em parceria com a São Paulo Turismo (SPTuris) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Elas não saíram falando inglês fluente, mas conseguem se comunicar com os clientes de fora e tem sido positivo. Inclusive, agora vão fazer o curso de espanhol”, disse Malu.

A funcionária dela, Maria de Lourdes Bezerra, 52 anos, se formou em abril pelo programa e foi oradora da turma de 13 alunos. Segundo Maria de Lourdes, falando inglês, as vendas aumentam e a satisfação dos clientes também. "Agora, posso oferecer mais coisas, antes a gente só ficava apontando. A partir do momento em que a gente fala inglês, muda o tratamento dos clientes em relação à gente. Se eles queriam comer uma coisa, já comem duas, querem experimentar e ficam curiosos”, explicou. Lourdes teve 40 aulas, de nível básico e instrumental, com foco em situações específicas do cotidiano do trabalho.

O mesmo fez a taxista Débora Boltolozi, 34 anos, que participou do Taxista Nota 10, que teve até o início deste ano mais de 11,3 mil inscritos. O curso de idiomas, oferecido gratuitamente pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), em parceria com o Serviço Social do Transporte (Sest), o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat) e ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), é feito a distância para facilitar o acesso dos taxistas. As aulas são em CDs, com apostilas específicas.

“Fizemos eu, meu marido, minha irmã e meu cunhado. Dá uma base boa porque é dirigido à profissão. Foram três meses de curso, então dá pra ir se virando. Com o tempo, vou me soltando. O que vale é a prática”, explicou Débora.

“Esses profissionais são os responsáveis por dar as boas-vindas a quem chega nas cidades e precisam estar preparados para isso. Nossa expectativa é que eles estejam cada vez mais preparados para gerenciar seus negócios e se tornarem um autêntico cartão de visita das cidades brasileiras, não só durante os grandes eventos, mas em todas as ocasiões em que o Brasil recebe turistas”, disse à Agência Brasil o presidente da CNT e do Sest-Senat, senador Clésio Andrade (PMDB-MG).

O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), em parceria com o Ministério do Turismo (MTur), também oferece oito cursos de idiomas – inglês, espanhol e Língua Brasileira de Sinais (Libras) –, com mais de 7,9 mil vagas nos estados-sede da Copa do Mundo (Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo). No Rio e em São Paulo, já há turmas formadas.

Esses cursos estão no âmbito do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), especificamente do Pronatec/Copa, criado em 2001. As aulas são gratuitas e as inscrições para o segundo semestre deste ano podem ser feitas pela internet. De acordo com o Mtur, a prioridade é dada às  cidades-sede da Copa das Confederações, em 2013. Os cursos são gratuitos e presenciais.

“Muito se fala em inclusão social. Inclusão social é não privar o aluno de baixa renda de se inserir no mercado de trabalho e nas relações sociais por causa da língua, ou da falta dela. Inglês é a completa inclusão social. Ainda é um privilégio de poucos, considerado elitista, o que não pode ser. O inglês precisa ser ferramenta disponível a todos, desde cedo, para a melhor formação profissional do cidadão brasileiro”, disse Nara Vidal.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A imigração sírio-libanesa no Brasil

PATRÍCIOS

Dinheiro, diploma e voto:
a saga da imigração árabe

Os primeiros imigrantes libaneses e sírios
queriam fazer fortuna e voltar. Ficaram,
trabalharam duro, investiram na educação
dos filhos. Criaram gerações de doutores
e uma tradição de participação na política                        



Fonte: Veja on-line
Flávia Varella

Salim, Ibrahim, Fuad, Abrahão, Jamil, Nagib, Habib, Tufik, Salomão, Chafic. Na vida de quase todo brasileiro "da gema" há um brasileiro com um nome assim – "turco", como se diz até hoje, mais por hábito do que por preconceito. Tem o dono da venda, o dono da fábrica, o político, o médico, o pai do amigo, o vizinho. Estima-se que os descendentes de libaneses e sírios somem 7 milhões de pessoas. São 4% da população brasileira, mas estão em todo canto. A Embaixada do Líbano no Brasil garante que há pelo menos um representante da colônia em cada um dos mais de 5.000 municípios do país. Marcam presença em todas as esferas da vida nacional (vejae em determinados nichos ganham um destaque especial. Na política e na medicina, a proliferação de sobrenomes árabes é tão intensa que chega a ser intrigante.

Alguns exemplos: no Congresso Nacional, instância máxima da política, dos 513 deputados, 38 têm origem libanesa ou síria, entre eles o presidente da Câmara, Michel Temer; dos 81 senadores, Pedro Simon, Paulo Ganem Souto, Artur da Távola, Ramez Tebet e Romeu Tuma têm sangue árabe correndo nas veias. Na conta final, são quase 8% dos parlamentares. Na cidade de São Paulo, onde 20% dos vereadores são da colônia, dos cinco candidatos no pelotão de frente das pesquisas para a prefeitura, três têm sobrenome árabe: Paulo Maluf (libanês), Romeu Tuma (sírio) e Geraldo Alckmin (ascendência distante). Em Mato Grosso do Sul, a contagem dos políticos de origem libanesa e síria é ainda mais impressionante. Eles são 37% dos deputados federais, 21% dos deputados estaduais e quase 30% dos vereadores da capital, Campo Grande.


A trajetória de grande parte dos imigrantes libaneses e sírios segue a trilha mascate, dono de loja de varejo, atacadista e depois, para os com mais sorte, indústria. Em busca de freguesia, eles se espalharam por todos os rincões do país. No ciclo da borracha, foram para a Amazônia. Até aos garimpeiros foram oferecer seus produtos

"Nossa representação na política chega a ser um exagero", dramatiza o senador Pedro Simon, gaúcho filho de libaneses que emigraram por volta de 1920. "É de longe a maior colônia no Congresso." Os números das grandes ondas de emigração que chegaram ao Brasil endossam a impressão. Libaneses e sírios, cerca de 130.000 ao longo de um século, entre 1872 e 1972, ocupam o sétimo lugar na classificação geral, muito longe dos italianos, portugueses e espanhóis, os campeões, e mesmo de japoneses, alemães e russos. Basta conferir qualquer lista de políticos para verificar que os nomes nipônicos ou teutônicos não pululam na mesma proporção que os árabes. Uma das explicações dessa representação política desproporcional ao contingente numérico está na própria história da trajetória dos imigrantes. O cientista social Oswaldo Truzzi, que analisa a questão no livro Patrícios: Sírios e Libaneses em São Paulo,detecta a importância de dois fatores confluentes. Primeiro, a extensa distribuição geográfica da colônia, fruto da atividade de mascate que nove em cada dez imigrantes abraçaram. Para os vendedores ambulantes, que saíam das cidades grandes com a malinha de produtos debaixo do braço, cada lugarejo representava um mercado em potencial. Se a concorrência era brava, eles se embrenhavam mais adiante. E mais ainda, sempre mais.

Um dos resultados disso: um neto de libaneses governador de Estado (e presidenciável em potencial) na ponta norte do país, Tasso Jereissati, no Ceará; um senador pelo Estado mais ao sul, Pedro Simon. A essa distribuição ramificada como um cedro do Líbano juntou-se a incrível mobilidade social da colônia, o segundo fator apontado por Truzzi. Os libaneses e sírios que começaram a desembarcar no Brasil nas últimas décadas do século XIX, vindos de regiões sob o domínio do Império Turco-Otomano (daí os passaportes turcos que provocaram a confusão), traziam na bagagem a ética do trabalho dos imigrantes, feita de gana, esforço, capacidade de enfrentar grandes sacrifícios. A ela logo acrescentavam a constatação de que, para alavancar a ascensão social em meio a uma "elite de doutores", precisavam somar o estudo ao capital. Assim que juntavam um dinheirinho, passavam a investir na educação dos filhos. A família do deputado Michel Temer é um exemplo clássico. Vindos do Líbano na década de 20, seus pais instalaram-se numa chácara em Tietê, interior de São Paulo. Na frente, a indefectível lojinha. Apenas o irmão mais velho de Temer não estudou, para ajudar o pai. Os outros quatro formaram-se em direito pela Faculdade do Largo São Francisco. O roteiro do senador Ramez Tebet foi praticamente idêntico, à exceção do cenário: criado em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, cursou direito no Rio de Janeiro, custeado pela lojinha paterna. "Tudo o que meu pai ganhou, gastou na educação dos filhos", diz o senador.

No levantamento de dados para seu trabalho sobre imigração e política, o sociólogo Truzzi ressalta o grande número de profissionais liberais filhos de imigrantes árabes, formados nas mais importantes faculdades de direito, engenharia e medicina, que depois se tornaram políticos, e a presença maciça de descendentes que entraram para o cenário da política federal e estadual a partir de carreiras iniciadas em cidades do interior. Fora dos grandes centros (com exceção de São Paulo, de forte presença árabe, onde o primeiro brasileiro da colônia foi eleito em 1930 para um cargo político: subprefeito do distrito do Ipiranga), era mais fácil furar a barreira das elites tradicionais. O avô do governador do Ceará, Aziz Jereissati, chegou a São Luís do Maranhão no início do século, vindo de uma família de ferreiros da cidade de Zahle (jarrass, que resultou no sobrenome do clã, quer dizer sino em árabe). Abriu uma loja de tecidos quando se mudou para o Ceará. Seu filho Carlos, pai de Tasso, já foi senador.

Ao contrário da de outros grandes grupos, a imigracão sírio-libanesa foi espontânea e individual. A maioria dos que aqui chegaram preferiu estabelecer-se na cidade e ganhar a vida como comerciante autônomo a ir para as lavouras do interior, como tiveram de fazer outros estrangeiros que já vinham contratados para o trabalho nas fazendas. Segundo um levantamento de 1934, 80% dos árabes viviam em centros urbanos, contra 20% no campo – exatamente o inverso dos imigrantes japoneses. O objetivo era "fazer a América": ganhar dinheiro e voltar. Acabavam ficando e trazendo o resto da família. O patrício chegava, pegava umas mercadorias em consignação, colocava na maleta e saía vendendo de porta em porta ou sobre a lona estendida na praça. Aos poucos, abria uma lojinha, um atacado, com sorte uma indústria. O comércio permitiu juntar dinheiro mais rápido e deu liberdade para depois aplicar parte dele em boas escolas para os filhos.

Ao colocarem suas quinquilharias na maleta e sair de bicicleta, no lombo do burro ou de barco pelos grotões do Brasil, os imigrantes ajudaram a povoar o país e fincaram raízes nos cantos mais remotos. O presidente americano Theodore Roosevelt conta, em suas memórias da viagem que fez pelo interior do Brasil em 1914, em companhia do marechal Rondon, que encontrou um jornal da colônia, escrito em árabe, num lugar onde não se avistava ninguém a dias de caminhada. A história da dispersão árabe pelo país coincide com etapas da História do Brasil. Houve o ciclo da borracha e lá foram eles oferecer seus produtos aos seringueiros, aos barões da borracha. O pai do cardiologista e ex-ministro da Saúde Adib Jatene abastecia com sal, batata e tecidos os seringueiros de Xapuri, no sertão do Acre, onde nasceu seu filho depois famoso. Houve o ciclo do café e lá foram os mascates para as porteiras das fazendas do interior de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, enfrentando a febre amarela e o temperamento arredio da gente do interior, vender tecidos, botões, roupas aos lavradores e seus patrões. Com o "comércio no sangue" desde gerações imemoriais, os imigrantes iam atrás de fregueses, de oportunidades. Ou mercado, como se diria hoje. Operaram uma revolução no comércio popular, com novidades como vendas a crédito, redução da margem de lucro compensada pela quantidade, alta rotatividade de estoque e promoção de liquidações.

O trabalho duro podia ser recompensado rapidamente. Miguel Estefno, avô materno do ex-governador Paulo Maluf, chegou ao Brasil em 1879. Mascateou durante quatro anos. "Foi a Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Campinas. Tudo a pé", relembrou sua filha Maria, em depoimento registrado no livro Memórias da Imigração, Libaneses e Sírios em São Paulo. Fez o percurso clássico: loja de armarinhos, atacadista de tecidos, dono de fábrica de fios. Maria já era uma jovem rica, que morava em mansão, só usava vestidos franceses e passava as férias na praia (a da Enseada, no Guarujá, litoral de São Paulo, comprada por seu pai) quando se casou com Salim Maluf, imigrante bonitão. O sogro, bem de vida, só ajudou como avalista na trajetória de sucesso que o levou de aprendiz numa fábrica de camisas a dono da maior serraria do país. A própria Maria Estefno Maluf demonstrou pendor genético para os negócios. Viúva ainda jovem, tomou gosto pelo trabalho, especialmente na área de imóveis. Deixou uma frase memorável: "Eu gostava de jóias. Mas achava que melhor do que gastar muito dinheiro em jóias era comprar propriedades".

O espírito de clã, trazido por imigrantes que tinham na aldeia o horizonte máximo, beneficiou a comunidade. A rede de favorecimentos começava na acolhida aos recém-chegados e se estendia depois até as relações entre industriais e grandes comerciantes, com facilidades de crédito e de fornecimento. Os mascates, em geral, abasteciam-se com patrícios, comerciantes que já haviam passado pela fase da maleta debaixo do braço e conseguiram abrir uma lojinha. A regra era dar uma força. Com limites, porém. Pois, como diz um provérbio da colônia: "Todo libanês é brimo até a brimeira falência". Essa rede perdurou também para facilitar a entrada em massa da segunda geração no mercado das profissões liberais e, em certo grau, para o ingresso na política. "Na atividade política, muitos cidadãos de origem síria ou libanesa encontraram um canal de mobilidade social", escreveu o americano Clark Knowlton, autor de um importante estudo sobre a imigração árabe no Brasil. "Outros foram forçados a entrar na política para proteger e promover seus interesses comerciais e industriais. Algumas famílias ricas adquiriram o direito de incluir seus filhos e sobrinhos em listas de candidatos pelo prestígio que um posto na política dá na colônia." Jamil Murad, deputado estadual paulista pelo Partido Comunista do Brasil há três mandatos, acredita que a preponderância de políticos árabes nos partidos de direita, ainda hoje, se explica por razão semelhante aos motivos históricos levantados por Knowlton. "Entre os descendentes políticos, há muitos profissionais liberais e empresários, o que gera uma tendência a apoiar programas que representam seus interesses", analisa.

Os primeiros a prospectar cargos políticos buscavam de certa forma dar continuidade a trajetórias familiares de ascensão social. Embora nem todos os imigrantes tenham ficado ricos, a maioria no mínimo abriu um pequeno negócio. De maneira geral, os que aportaram primeiro foram os que amealharam maior capital. As grandes fortunas das décadas de 40 e 50 eram justamente das famílias que trilharam pioneiramente o trajeto mascate-comerciante-industrial. Em 1907, das 315 firmas de donos sírios ou libaneses em São Paulo, cerca de 80% eram lojas de tecidos ou armarinhos. Em 1930, eram proprietários de 468 dos 800 estabelecimentos de tecidos e confecções, de seis das dez fábricas de camisas, de catorze das 48 fábricas de roupas brancas. Entre as décadas de 40 e 50, o número de comerciantes varejistas diminuiu, enquanto o de atacadistas dobrou e o de industriais, quintuplicou. A escritora Rose Marie Muraro conta que sua família, os Gerbara, donos de uma fábrica de seda, faturava por mês, no fim da década de 40, o equivalente em valores atualizados a 20 milhões de dólares. "Eu vivia como uma princesa, primeiro num palacete na Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo, depois em Copacabana", rememora.

Entre todas as grandes fortunas, a maior provavelmente era dos Jafet. Eles praticamente fundaram o bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde ergueram fábricas, prédios de apartamentos para seus cerca de 2 000 operários e uma dezena de palacetes para toda a família. O primeiro deles, de Benjamin Jafet, tinha 1 500 metros quadrados de área construída. Violeta Jafet, neta de um dos pioneiros, lembra que recebeu toda a sua formação escolar sem sair de casa porque a mãe tinha medo de doenças infecto-contagiosas – ela só foi ter sarampo aos 30 anos de idade. Sua irmã Ângela cursou até o 2º ano de engenharia sem conhecer uma sala de aula. Quando casou, mudou para um dos palacetes do Ipiranga e montou num dos ambientes uma sala igual à de um castelo que viu na Europa, "com cortinas de veludo verde e forro todo em estuque prateado". Outra sala era cópia de uma do Palácio de Versalhes. Os Jafet, porém, não eram os únicos ricos da colônia. Em 1930, a Avenida Paulista, o endereço mais chique de São Paulo, tinha 22 casas cujos donos eram de origem árabe.

A história recente do Líbano é marcada por guerras e conflitos, fatores que pesaram na imigração de volume excepcional. O Líbano tem uma população de 3,2 milhões de habitantes e o número de libaneses e seus descendentes fora do país é de 14 milhões. Quase a metade destes no Brasil. Há presença significativa também nos Estados Unidos, Austrália, Canadá e outros países latino-americanos, onde se repete o fenômeno da marcante representação política. Num encontro internacional de parlamentares de origem libanesa que aconteceu há dois anos em Brasília, apareceram deputados e senadores de doze países, além dos anfitriões. Os Estados Unidos têm um senador e três deputados filhos de libaneses. O Equador alinha dois presidentes saídos da colônia: Abdalá Bucaram (deposto e exilado) e Jamil Mahuad. A Argentina, um filho de sírios, Carlos Menem.

De fé muçulmana, Menem converteu-se ainda jovem ao catolicismo, revelando notável capacidade de antever os fatos – quando foi eleito, a Constituição argentina ainda exigia que o presidente fosse católico. A grande maioria dos imigrantes, porém, era de cristãos: católicos maronitas ou ortodoxos. Minoritários num mar de muçulmanos, perseguidos por motivos religiosos, viram a religião funcionar a seu favor do outro lado do oceano. "Como não havia o empecilho da religião, a integração foi maior, diferente por exemplo da dos judeus", afirma Vera Cattini Mattar, uma das autoras do livro Memórias da Imigração. O fato de serem cristãos num país de católicos é citado por muitos estudiosos como uma das causas da boa aceitação que sírios e libaneses tiveram no Brasil e um dos motivos da rápida integração.

Mesmo com dificuldade em distinguir masculino e feminino e em pronunciar algumas letras, como o P e o V, que não existem no alfabeto árabe, os "brimos" logo se integraram à vida no Brasil. Para facilitar o negócio mudavam até de nome. Eram comuns as traduções, ou melhor, as livres traduções. Youssef Dau virou José da Luz; Butros Harb, Pedro Guerra; Hanna Dib, João Lobo. O sobrenome Jabarra tornou-se Gabeira. O pai do ex-ministro Adib Jatene saiu do Líbano como Abdalla, mas conquistou os seringueiros como Domingos. Quibe e esfiha viraram comida brasileira, um fast food pioneiro. O sobrenome do político mais conhecido da colônia deu origem ao brasileiríssimo verbo malufar. O fato de que, exceto numa reportagem como esta, ninguém pensaria em juntar sob o mesmo guarda-chuva personagens tão variados como os vistos nestas páginas é talvez o sinal mais ilustrativo da total integração. Até o pendor político pode ser visto sob um ângulo nacional. João Sayad, ex-ministro do Planejamento, professor de economia na Universidade de São Paulo e banqueiro, arrisca uma comparação: "Libanês tem mania de falar em público e de escrever. É uma espécie de baiano do Oriente Médio".

Mala no burro e casa na Paulista

Pai com banana, filhos com toga
A história da Paramount, a maior fabricante de fios de fibra longa da América do Sul, dona das marcas Pingouin e Lacoste, começou com um imigrante tocando um burro carregado de tecidos e dormindo em barraca. Nassib José Mattar foi mascate durante três anos. Antes da virada do século, abriu uma loja. Dois anos depois, comprou seis teares e fundou uma fábrica de seda misturada com fios de viscose, uma novidade até na Europa. Trabalhava dezoito horas por dia tendo em mente o projeto de todo imigrante: criar bem a família (sonho que o pai, morto em conflito religioso no Líbano, não realizou). Em 1922, Nassib comprou uma casa na Avenida Paulista, ponto mais nobre de São Paulo, e para lá levou os oito filhos. Todos estudaram direito ou engenharia e trabalharam com ele na tecelagem. Hoje o negócio é tocado por seu filho Fuad pai de Luiz Mattar, campeão de tênis. Nassib nunca voltou ao Líbano. Fuad nunca foi a um restaurante árabe.

O mascate Mohamad Mazloum economizava tanto que ele e a mulher almoçavam pão com banana. No início até achavam bom – banana era fruta nobre e rara no Líbano. O esforço do casal valeu a criação de uma família em que os sete filhos homens têm curso superior(foto ao lado). Quatro deles se destacam na área jurídica. "A partir dos 10 anos tínhamos de trabalhar na loja, mas sem deixar de estudar", diz Ali Mazloum, juiz federal responsável pela primeira condenação judicial de um membro da equipe do presidente Collor. Saad é promotor de Justiça e condenou Pitta e Maluf pelo imbróglio dos precatórios. Nadim, também promotor, afastou o prefeito e vereadores de Guarulhos por corrupção. Omar é procurador do Banco Central. Outros dois irmãos administram as três lojas de móveis da família. Mazloum, em árabe, significa injustiçado.

Da casa de barro ao apê na Barra

No Líbano, a família de Bassan Chedraoui tinha duas vacas que lhe davam coalhada, leite e queijo. "Sem elas, não teríamos sobrevivido", conta Bassan, que, menino, levava as vacas para pastar depois da escola. Em 1959, emigraram. Dois irmãos empregaram-se em lojas. Outros dois enchiam as malas e iam de ônibus vender mercadorias para os operários que construíam Brasília. Três anos dessa maratona renderam o capital para a abertura do primeiro estabelecimento. Hoje, os quatro irmãos são donos de lojas de roupas em Nova Iguaçu. Morador da Barra da Tijuca, ele abriu um restaurante árabe no bairro. Ficou conhecido como o Rei do Quibe.

A corrente mudou de direção

O Brasil começou a fechar a porta à imigração com a Constituição de 1934, que adotou um regime de cotas para a entrada de estrangeiros. Nos anos 50, foi criada a Carta de Chamada, pela qual o estrangeiro só recebia visto de permanência com garantia de emprego. "Hoje, a orientação do governo é para que a imigração seja seletiva, apenas para profissionais que tragam conhecimento ao país", afirma Luiz Paulo Barreto, do Ministério da Justiça. "Na prática, o que às vezes significa ilegalmente, os imigrantes que recebemos são de lugares em que a situação econômica ou política é pior que a nossa", diz a socióloga Lucia Bógus. Um exemplo é o próprio Líbano, dilacerado pela guerra civil de 1975 a 1990, o que provocou uma nova leva de imigrantes. Muçulmanos na maioria, concentram-se em Foz do Iguaçu.
Em setenta anos, contados a partir da última década do século XIX, 5 milhões de estrangeiros instalaram-se no Brasil. Hoje, a situação inverteu-se. De país tradicionalmente receptor de imigrantes, o Brasil passou a exportador. Há pouco mais de 1 milhão de estrangeiros morando aqui e entre 1,5 milhão e 2 milhões de brasileiros vivendo no exterior. Na virada do século XIX, o Brasil queria que os estrangeiros viessem. Com a abolição da escravatura em 1888, era preciso substituir o negro pelo branco como mão-de-obra para as lavouras. Havia também um projeto de "embranquecimento", coerente com as teorias raciais da época. A política de atração do governo incluía pagamento de passagens, emprego certo e até promessas de terras, nem sempre cumpridas.

Sete milhões de libaneses e descendentes vivem no Brasil

Libaneses comemoram 130 anos da emigração para o Brasil

Colônia Sírio-Libanesa no Brasil

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Você é escravo do celular?

Eles roubam nosso tempo, atrapalham os relacionamentos e podem até causar acidentes de trânsito. Quando é a hora de desligar? Faça o teste e descubra se você é viciado em celular

RAFAEL BARIFOUSE. COM ISABELLA AYUB

COMPORTAMENTO - 08/06/2012 00h00 - Atualizado em 08/06/2012 12h04

Capa Época 734 (Foto: divulgação)
 Revista Época

Estamos viciados. Em qualquer lugar, a qualquer momento do dia, não conseguimos deixar de lado o objeto de nossa dependência. Dormimos ao lado dele, acordamos com ele, o levamos para o banheiro e para o café da manhã – e, se, por enorme azar, o esquecemos em casa ao sair, voltamos correndo. Somos incapazes de ficar mais de um minuto sem olhar para ele. É através dele que nos conectamos com o mundo, com os amigos, com o trabalho. Sabemos da vida de todos e informamos a todos o que acontece por meio dele. Os neurocientistas dizem que ele nos fornece pequenos estímulos prazerosos dos quais nos tornamos dependentes. Somos 21 milhões – número de brasileiros com mais de 15 anos que têm smartphones, os celulares que fazem muito mais que falar. Com eles, trocamos e-mails, usamos programas de GPS e navegamos em redes sociais. O tempo todo. Observe a seu redor. Em qualquer situação, as pessoas param, olham a tela do celular, dedilham uma mensagem. Enquanto conversam. Enquanto namoram. Enquanto participam de uma reunião. E – pior de tudo – até mesmo enquanto dirigem.
“É uma dependência difícil de eliminar”, diz o psiquiatra americano David Greenfield, diretor do Centro para Tratamento de Vício em Internet e Tecnologia, na cidade de West Hartford. “Nosso cérebro se acostuma a receber essas novidades constantemente e passa a procurar por elas a todo instante.” O pai de todos os vícios, claro, é o Facebook, maior rede social do mundo, onde publicamos notícias sobre nós mesmos como se alimentássemos um grande jornal coletivo sobre a vida cotidiana. Depois dele, novas redes foram criadas e apertaram o nó da dependência. Programas de troca de fotos como o Instagram conectam milhões de pessoas por meio das imagens feitas pelas câmeras cada vez mais potentes dos celulares. Os aplicativos de trocas de mensagem, como o Whatsapp, promovem bate-papos escritos que se assemelham a uma conversa na mesa do bar. O final dessa história pode ser dramático. Interagir com o aparelho – e com centenas de amigos escondidos sob a tela de cristal – tornou-se para alguns uma compulsão tão violenta que pode colocar a própria vida em risco. 
Na reportagem de capa da edição que chega às bancas e ao seu tablet (baixe o aplicativo) nesta sexta-feira (8), ÉPOCA se debruça sobre o onipresente universo dos smartphones. Antes restritos à voz, os celulares inteligentes se transformaram em computadores portáteis que carregamos no bolso, às vezes sem nos dar conta de que dentro deles estão nosso círculo de amigos, nosso trabalho, nossas lembranças e – sobretudo – nossa disposição em responder a qualquer interrupção. Ele toca, vibra ou faz apenas aquele inconfundível ruído de chegada de uma nova mensagem – e pronto! Lá estamos nós digitando no meio da reunião, da aula, do almoço, do encontro amoroso, quando não em situações arriscadíssimas como o volante ou a mesa de cirurgia.
Ninguém defenderá a volta a um mundo antigo, sem os confortos do mundo digital – até porque, de um ponto de vista puramente pragmático, isso é impossível. Mas é inegável que as novas tecnologias despertam novos padrões de comportamento e exigem profundas mudanças de hábito, para que cada indivíduo aprenda a conviver com elas de modo saudável. Os smartphones se tornaram ferramentas essenciais para a agilidade e a presteza, hoje tão necessárias para garantir os níveis de produtividade exigidos na economia moderna. Mas não podemos nos tornar escravos deles. É preciso saber a hora de desligar. E fazê-lo sem medo, sem sentimento de culpa e com a certeza de que somos nós – seres humanos – que devemos comandar as máquinas. E não o contrário.
Teste: você é dependente do celular?